Aquela noite foi terrível, eu não conseguia dormir, apenas chorar, eu não contei para a Eloise sobre o que havia acontecido com o bebê, mas ela percebeu, assim que deitamos ela passava sua mãozinha suave no meu rosto e olhava fixamente nos meus olhos como quem diz: calma mamãe, eu estou aqui.
Assim que amanheceu o dia para variar passei mal, eu vomitava todos os dias e já acordava enjoada, mas aquele dia sentir aquele enjoo era terrivelmente insuportável, então não pensei duas vezes fui arrumar minhas coisas para a internação eu precisava tomar uma atitude. A Eloise nunca dormiu fora de casa, eu pretendia fazer isso no decorrer da gravidez, mas não deu tempo, então chegou o dia em que teríamos que enfrentar a situação sem a devida preparação, a unica coisa que me restou foi conversar com ela, a chamei e disse: filha, a mamãe vai ao médico e vou demorar para voltar, a noite você vai precisar dormir com a vovó talvez o papai esteja aqui para dormir com você, mas logo logo a mamãe voltará,ela chorou e disse: não mamãe, só mamãe (só quero a mamãe), então não preciso dizer que desabei a chorar. Mas graças a Deus no momento de irmos para o hospital ela nos abraçou bem forte e logo os titios conseguiram a distrair e assim seguimos eu e o meu marido, sem trocarmos palavras, novamente não havia palavras. Eu chorei o caminho todo, eu não queria estar vivendo aquilo, eu precisava ir para o hospital para resolver a situação, então só me restava seguir enfrente.
Fiquei internada na sala de pré-parto, foi uma tortura, pois da minha cama eu enxergava o corredor e via as mulheres seguindo para o centro cirúrgico para terem seus bebês. Fui internada as 13:30 e só as 15:00 que começaram a me dar a medicação que iria forçar a expulsão do feto, a enfermeira me disse: olha com essa medicação você sentirá dor e contrações, será normal, quando a dor for insuportável você pode nos chamar. Eu pensei: meu Deus, dor insuportável? Será possível que ainda exista alguma dor pior do que a dor que estou sentido? A dor de saber que você já perdeu um filho? Impossível.
Logo depois deixaram meu marido entrar, eu ainda não estava sentindo as contrações, apenas aquela tristeza sem fim, eu chorava o tempo todo, e meu marido segurava minha mão. Mais tarde minha mãe foi me ver, quando ela entrou no quarto e me abraçou eu finalmente tinha encontrado um abraço salvador, o abraço da minha mãe sempre me aliviava, mas dessa vez nem o abraço dela tirava aquela dor, então eu disse: mãe eu não quero passar por isso, e ela apenas chorou e me abraçou e me pediu para ser forte. Logo que ela saiu, meu pai e em seguida minha irmã entraram, era possível apenas 1 pessoa por vez eles levaram videos da Eloise para eu me distrair, e justamente naquele dia a cama dela havia chegado, então eles filmaram a reação dela com a caminha foi um barato, só aumentou a minha saudade, e queria que eles me levassem dali, meu pai orou por mim e logo depois que eles foram embora eu comecei a sentir cólicas e contrações, era exatamente 18:50 hs. Eu sabia que o meu marido só poderia ficar comigo até as 21:00 hs. Eu queria muito que tudo o que tivesse que acontecer, acontecesse até esse horário, não queria passar sozinha. Segui até as 21:00 apenas com as contrações a enfermeira me examinou e disse que o colo do útero ainda estava fechado e então me deu outra medicação e chamou meu médico. Eu pedi que meu marido ficasse mais um pouco e eles deixaram ele ficar até as 22:00 hs.
Quando foi umas 21:15 hs senti que alguma coisa havia saído, meu médico chegou e me examinou, mas era apenas a bolsa que havia rompido, um ótimo sina disse ele. Continuei com dor e as contrações iam aumentando, como estava com muita ânsia me aplicaram uma injeção de plasil. Então deu 22:00 hs e meu marido não podia mais ficar, ele me beijou e eu pedi para ele cuidar bem da Eloise. Sabia que agora eu teria que continuar sozinha, era eu e Deus. Meu médico também foi embora e prescreveu que a meia noite as enfermeiras me dessem uma medicação no soro para acelerar as contrações. Graças ao efeito do plasil eu seguia um pouco dormindo e um pouco acordada com muita dor, mas era ainda uma dor suportável, nada seria pior do que a dor eu já estava sentindo.
Quando faltava 1 minuto para meia noite e acordei e estava com muita dor, troquei umas palavras com uma moça que estava na cama ao lado da minha e me levantei para ir até o banheiro, antes que as enfermeiras chegassem para aplicar o soro. Assim que cheguei no banheiro para minha surpresa eu comecei a sangrar muitooooooo, muito mesmo, comecei a perder os sentidos e então só lembrei de abrir a porta e pedir para chamar a enfermeira, sentei no vaso já desfalecida e ouvi um barulho, eu tive a certeza de que era o feto saindo, não doeu, e graças a Deus eu não vi, eu havia pedido a Deus que não permitisse que eu visse, pois saberia que se eu visse iria guardar pra sempre aquela imagem na minha memória e eu não queria. Logo as enfermeiras chegaram me levaram pra cama e chamaram meu médico, eu suava muito e já não conseguia enxergar direito, estava com muita dor, mas não era uma dor insuportável, não era maior do que a dor que eu ja havia sentido quando soube que tinha perdido meu bebê. Logo meu médico chegou e já me levou para sala de cirurgia, eu temia fazer uma curetagem mas meu médico havia me garantido que era melhor, era a garantia que meu útero estava limpo e livre de infecções. Eu segui para a sala da cirurgia com muita, mas muita dor, eu não falava, não gritava, eu apenas chorava, era um choro quieto e só meu, logo me deram um medicamento que eu apaguei, depois de 1 hora acordei e ouvi meu médico dizendo: pronto, acabou, ocorreu tudo bem, amanhã cedo te darei alta. Eu ainda estava meio tonta sem saber o que estava acontecendo e com muita dor, me levaram para o quarto e eu dormi, isso era umas 3:00 hs da madrugada. Pontualmente as 7:00 estava lá meu médico me esperando acordar para verificar se e estava bem e me dar alta, eu não sentia mais dor, e então eles deixaram meu marido entrar para me ver, tomei um café e tive alta.
Seguimos para a casa, verbalizei tudo o que havia ocorrido para meu marido, mas eu já não chorava mais, parecia que havia se esgotado toda água do meu corpo. Eu estava sem cor, sem dor, sem vontade de nada. Cheguei em casa e me deitei, na minha cama estava a Elô dormindo como um anjinho, ela havia dormido com o papai e super bem não deu trabalho. Dormi bem agarradinha com ela, algumas horas depois acordei com uma voz doce: Mamãeeeeeeeee!!!!!!! Ela me abraçou e eu me senti acolhida e amada.
Os dias tem sido difíceis, tudo me faz lembrar o bebê que perdi, parece que cada canto da casa já tinha um espaço pra ele, as vezes eu me distraio e conseguido conversar sobre outras coisas, mas de repente me pego chorando, impossível esquecer tudo o que aconteceu, pois eu sai do hospital sem um bebê nos braços para me fazer esquecer a dor. Mas sigo enfrente, pois tenho uma filha que precisa e depende muito de mim e por ela e pela força de Deus e apoio da minha família eu estou de pé. Eu sei que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, eu sei que Ele está no controle de todas as coisas, Deus sabe o que cada um de nós podemos suportar. Confio em ti Jesus, e sei que o Senhor tem mais para minha vida.